Competência
e a seriedade de Dalcolmo e a desfaçatez dos Bolsonaros.
Publicado por Kakay
DCM.
Atualizado em 24 de julho de 2026 às 9.00hs
Por Kakay em Poder 360
“O velho
abutre é sábio
e alisa as suas penas.
A podridão lhe agrada
e seus discursos
têm o dom de tornar
as almas mais pequenas.”
–Sophia de
Mello Breyner, no poema “O Velho Abutre”
A médica e pesquisadora Margareth Dalcolmo
impressiona pela clareza, inteligência e confiança que transmite nas
entrevistas. Ela exala competência e seriedade. Nos tempos tristes e
desesperadores da pandemia de covid, a sua presença nos acompanhava e nos
acolhia.
Trancados em casa,
acompanhávamos, estarrecidos, a leitura macabra dos números de mortos
anunciados diariamente. Além disso, cada um de nós, à época, carregava a dor e
a preocupação por algum familiar ou amigo. Eu passei noites com 2 queridos
irmãos, internados e entubados, com sérios riscos de morte. E os relatos se
acumulavam sobre as mortes de parentes, amigos e conhecidos. Foi um pesadelo
que ainda nos acompanha. E que sempre vai nos amedrontar.
Nesta semana, a Dra. Dalcolmo,
durante um ciclo de debates sobre cinema e direitos humanos realizado na
Estação Claro Rio, ao participar da exibição do documentário “Anatomia do
Caos“, fez uma declaração que trouxe de volta toda tristeza, revolta e
indignação pelo descaso oficial e criminoso do governo Bolsonaro com a
pandemia. Ela, com a autoridade que ostenta, falou o que muitos de nós já
intuíamos:
“720 mil mortes não é
verdade. No Brasil, nós tivemos pelo menos 3 vezes o número registrado
oficialmente de mortes por covid-19. Seguramente, nós tivemos mais de 2 milhões
de mortos, seja pela doença aguda naquele momento, seja pelas doenças
decorrentes das consequências e das sequelas decorrentes de uma infecção aguda
de transmissão respiratória”.
É impossível esquecer que, em 7
de outubro de 2020, o general Pazuello, então ministro da Saúde do
governo de Jair Bolsonaro, afirmou, no evento de abertura da campanha
Outubro Rosa, que "não sabia o que era o SUS!" Revoltante. Assassinos.
Irresponsáveis. Malandros. Ignorantes. Na mesma solenidade, Michelle
Bolsonaro e a então ministra Damares Alves falaram sobre a
importância de a mulher cuidar do próprio corpo.
Impossível não lembrar do deboche
irresponsável do hoje presidiário Bolsonaro quando tratava do tema
covid: “Superdimensionado”; “Gripezinha”; “Resfriadinho”; “Não sou coveiro”;
“Sou Messias, mas não faço milagres”; “País de maricas”; “Chega de frescura e
mimimi. Vão ficar chorando até quando?”. Em 22 de janeiro de 2022, quando
havia 622.801 mortos oficialmente, Bolsonaro disse, em entrevista em São Paulo,
que o número de mortes de crianças era “insignificante”.
À época, a sociedade civil
tentou, de diversas formas, responsabilizar criminalmente o então presidente Bolsonaro
e seu bando. Eu mesmo assinei, junto com o Conselho Federal da OAB, uma
representação dirigida ao procurador-geral da República para imputar culpa ao
hoje presidiário Bolsonaro pela morte de milhares de brasileiros.
No Brasil, o Ministério Público é
o titular da ação penal. Em certos casos, como nesse da denúncia por homicídio,
só ele tem o poder de acusar formalmente e levar a questão ao Judiciário. Um
poder inerte que só age quando provocado. Por isso, cunhei a expressão “poderes
imperiais” para o procurador-geral.
No caso concreto, o Ministério
Público quedou-se inativo. Ainda discutimos, à época, uma hipótese de
queixa-crime subsidiária, mas encontramos o entrave quanto à legitimidade. Ou
seja, nossa representação nem sequer foi analisada. E Bolsonaro, Pazuello
e tantos outros se livraram da responsabilidade evidente. Sequer foram
processados. Um acinte. Um crime dentro de outro crime.
É claro que os crimes não estão
prescritos e, mesmo nos casos em que houve pedidos de arquivamento, parece
evidente que há fatos novos que ensejam a reabertura. Os 2 milhões de mortos
continuam rondando nossas mentes, insepultos pela violência da omissão, do
descaso e dos atos criminosos. E os milhões de familiares e amigos restam
indignados.
O que talvez mais assuste e cause
perplexidade é o fato de o bolsonarismo ainda resistir! Como o líder, hoje
presidiário, Bolsonaro só foi condenado e preso por outros fatos,
disseminou-se uma ideia de perseguição política. Os bolsonaristas, em regra,
são indigentes intelectuais. Acompanham, como um gado, o berrante da
mentira e das promessas absurdas.
Ainda agora o número 1, senador, apresenta-se como candidato
à Presidência da República. E tem uma legião de seguidores! E ele segue na
mesma trilha do pai.
Nesta semana, fez um discurso em um evento privado, perante
representantes de 42 países. No encontro, o candidato a candidato ousou afirmar
que o Brasil utiliza urnas eletrônicas fabricadas pela empresa venezuelana
Smartmatic e citou um relatório da CIA segundo o qual a companhia estaria
envolvida em fraudes nas eleições da Venezuela em 2012.
Tal mentira já havia sido propagada pelo hoje presidiário
Bolsonaro, na presença de embaixadores, em 2022, o que resultou em uma nota
oficial do Tribunal Superior Eleitoral desmentindo a informação.
O ato do então presidente da República deu origem a um
julgamento no qual o hoje presidiário foi condenado. O TSE declarou Jair
Bolsonaro inelegível por 8 anos por abuso de poder econômico e uso
inapropriado dos meios de comunicação na reunião com embaixadores no Palácio da
Alvorada, em 18 de julho de 2022.
Ainda assim, o filho número 1, hoje pré-candidato, repete o
discurso mentiroso que já resultou na repetição da mesma nota oficial do
Tribunal Superior Eleitoral desmentindo o fato. É inacreditável. Podemos
esperar uma nova pandemia, com a irresponsabilidade criminosa no seu
enfrentamento.
O senador Flávio indica que seguirá rigorosamente a
trilha nefasta do seu pai, hoje presidiário. Os bolsonaristas sobrevivem e se
alimentam da mentira, da ignorância e da dor dos mortos. Deverão ser todos
responsabilizados.
Lembrando-nos do velho Marx, no Dezoito Brumário:
“A história se repete, a 1ª vez como tragédia e a 2ª,
como farsa.”
Antônio Carlos de Almeida Castro, conhecido pela alcunha de
Kakay, é um dos maiores advogados criminalistas brasileiros. É também poeta e
escritor.
