segunda-feira, 27 de julho de 2026

 

Truque de IA na convenção do PL poderá gerar inelegibilidade de Flávio

 Doutor Wálter Maierovitch

Colunista do UOL

 

27/07/2026 11h42

Tumultuar, consumar ilegalidades e proibições judiciais para jogar com o fato consumado e espernear depois sempre foi a marca registrada dos Bolsonaros. Eles se fingem de vítimas de perseguições políticas, difundem o ódio e sobrevivem da polarização.

Esse tipo de conduta com marca registrada ocorre por ações dos próprios Bolsonaros ou por interpostas pessoas.

Na convenção partidária de confirmação da candidatura de Flávio Bolsonaro, ocorrida no último sábado, não foi diferente

Truque grosseiro

Na convenção do PL, um truque grosseiro foi exibido em vídeo, com auxílio de instrumentos da Inteligência Artificial (IA).

Na verdade, buscou-se uma burla às proibições constitucionais, penais e judiciais de Jair Bolsonaro se manifestar eleitoralmente.

Como se sabe, o ex-presidente está com direitos políticos e cidadania suspensos em face de condenação definitiva emanada do STF (Supremo Tribunal Federal).

Por meio do uso de deepfake, técnica que emprega a inteligência artificial para criar adulterações, exibiu-se uma montagem de Jair Bolsonaro…

Imagem criada, mas com discurso de conteúdo fidelíssimo ao pensamento de Jair Bolsonaro. 

Atenção ao conteúdo:

“Como todos aqui sabem, eu estou preso e calado por uma decisão injusta e arbitrária, baseada em algo que eu nunca fiz. Mas eu garanto: nenhuma prisão vai calar o sentimento de esperança que carregamos. Nenhuma prisão vai calar milhões de brasileiros que acreditam no nosso país. Por isso, peço que vocês recebam de braços abertos a pessoa que escolhi para me substituir, sangue do meu sangue, meu filho Flávio. Vem com fé. O Brasil tem futuro e o futuro é Flávio Bolsonaro presidente."

Essa burla montada teve o aval do partido promotor da convenção — o PL, representado ao vivo e em cores reais por Valdemar Costa Neto, partícipe da ilegalidade.

Usando uma comparação, seria como se Albert Einstein, por adaptações de fotos e filmagens antigas, fizesse uma exposição em vídeo, com fidelidade absoluta da sua teoria da relatividade.

A farsa rocambolesca da convenção do PL, com ativa participação e conivência de Flávio Bolsonaro, teve como abertura um aviso plantado, para uso em futura alegação, perante a Justiça Eleitoral, de exclusão de responsabilidade:

"Isso que vocês estão vendo aqui não sou eu. Isso é uma simulação da minha imagem e da minha voz feita com inteligência artificial."

Como se nota, nenhuma explicação se prestou sobre o conteúdo proibido.

Diante do sucedido, alguns questionamentos já estão sendo feitos. De permeio , os advogados do PL entendem não ter havido nenhuma ilicitude.

Volta à Papudinha?

Repito, houve intencional artimanha para driblar proibições, para refletir no processo de execução das penas impostas a Bolsonaro com trâmite no STF e, também, na Justiça Eleitoral.

Na execução penal, existe concessão de medida humanitária, com base em risco à saúde do preso, com tudo atestado por laudos médicos. E esse benefício não pode ser revogado com base em falta disciplinar.

Submeter o preso doente, no caso de Jair Bolsonaro, a tratamento desumano — na hipótese da cessar assistência necessária e colocar o preso em lugar inadequado — significaria imposição de pena extra, desumana, geradora de   sofrimentos ou até risco de morte.

 -Ninguém pode receber sanção extra, não prevista na sentença…

Assim, a volta de Jair Bolsonaro ao presídio da Papudinha não pode decorrer de ato de indisciplina e de descumprimento de dever do preso condenado.

Tem mais, atenção. Nunca haverá prova, no caso confissão, de Jair Bolsonaro ter sido consultado e autorizado o vídeo e o conteúdo montados. A responsabilidade criminal ou eleitoral não se presume.

           Inelegibilidade de Flávio

O TSE (Tribunal Superior Eleitoral) tem resolução, com força de lei, que proíbe o uso de deepfakes. A vedação vale para as campanhas e, evidentemente, para a fase antecedente — ou seja, de escolha dos candidatos.

Diante do que ocorreu na convenção do PL, com burla descarada, caberá ao Ministério Público Eleitoral e a partidos políticos, coligações e candidatos (já escolhidos em convenção e com registro de candidatura pendente de aprovação) representar ao corregedor-geral para apurações das ilicitudes e abusos. Esse é o caminho para proteção dos eleitores e respeito à Justiça Eleitoral, que não pode ser desmoralizada.

O pedido de providências, com possibilidade de instauração de ação de Investigação Judicial Eleitoral pelo corregedor, está previsto no artigo 22 da Lei Complementar 64/1990.

Observados os ritos e garantida ampla defesa, a procedência da ação, julgada pelo Tribunal e com o corregedor como relator, implicará a inelegibilidade do representado (Flávio Bolsonaro) e de quantos hajam contribuído para a prática do ato (Valdemar Costa Neto). Ainda que após a proclamação dos eleitos, como diz a lei.

postado no UOL. 

 

 Competência e a seriedade de Dalcolmo e a desfaçatez dos Bolsonaros.

Publicado por  Kakay

 DCM.

 Atualizado em 24 de julho de 2026 às 9.00hs



                                     Jair Bolsonaro durante a pandemia. Foto: reprodução

Por Kakay em Poder 360

O velho abutre é sábio
e alisa as suas penas.
A podridão lhe agrada
e seus discursos
têm o dom de tornar
as almas mais pequenas.”

–Sophia de Mello Breyner, no poema “O Velho Abutre”

A médica e pesquisadora Margareth Dalcolmo impressiona pela clareza, inteligência e confiança que transmite nas entrevistas. Ela exala competência e seriedade. Nos tempos tristes e desesperadores da pandemia de covid, a sua presença nos acompanhava e nos acolhia.

Trancados em casa, acompanhávamos, estarrecidos, a leitura macabra dos números de mortos anunciados diariamente. Além disso, cada um de nós, à época, carregava a dor e a preocupação por algum familiar ou amigo. Eu passei noites com 2 queridos irmãos, internados e entubados, com sérios riscos de morte. E os relatos se acumulavam sobre as mortes de parentes, amigos e conhecidos. Foi um pesadelo que ainda nos acompanha. E que sempre vai nos amedrontar.

Nesta semana, a Dra. Dalcolmo, durante um ciclo de debates sobre cinema e direitos humanos realizado na Estação Claro Rio, ao participar da exibição do documentário “Anatomia do Caos“, fez uma declaração que trouxe de volta toda tristeza, revolta e indignação pelo descaso oficial e criminoso do governo Bolsonaro com a pandemia. Ela, com a autoridade que ostenta, falou o que muitos de nós já intuíamos:

“720 mil mortes não é verdade. No Brasil, nós tivemos pelo menos 3 vezes o número registrado oficialmente de mortes por covid-19. Seguramente, nós tivemos mais de 2 milhões de mortos, seja pela doença aguda naquele momento, seja pelas doenças decorrentes das consequências e das sequelas decorrentes de uma infecção aguda de transmissão respiratória”.

É impossível esquecer que, em 7 de outubro de 2020, o general Pazuello, então ministro da Saúde do governo de Jair Bolsonaro, afirmou, no evento de abertura da campanha Outubro Rosa, que "não sabia o que era o SUS!" Revoltante. Assassinos. Irresponsáveis. Malandros. Ignorantes. Na mesma solenidade, Michelle Bolsonaro e a então ministra Damares Alves falaram sobre a importância de a mulher cuidar do próprio corpo.

Impossível não lembrar do deboche irresponsável do hoje presidiário Bolsonaro quando tratava do tema covid: “Superdimensionado”; “Gripezinha”; “Resfriadinho”; “Não sou coveiro”; “Sou Messias, mas não faço milagres”; “País de maricas”; “Chega de frescura e mimimi. Vão ficar chorando até quando?”. Em 22 de janeiro de 2022, quando havia 622.801 mortos oficialmente, Bolsonaro disse, em entrevista em São Paulo, que o número de mortes de crianças era “insignificante”.

À época, a sociedade civil tentou, de diversas formas, responsabilizar criminalmente o então presidente Bolsonaro e seu bando. Eu mesmo assinei, junto com o Conselho Federal da OAB, uma representação dirigida ao procurador-geral da República para imputar culpa ao hoje presidiário Bolsonaro pela morte de milhares de brasileiros.

No Brasil, o Ministério Público é o titular da ação penal. Em certos casos, como nesse da denúncia por homicídio, só ele tem o poder de acusar formalmente e levar a questão ao Judiciário. Um poder inerte que só age quando provocado. Por isso, cunhei a expressão “poderes imperiais” para o procurador-geral.

No caso concreto, o Ministério Público quedou-se inativo. Ainda discutimos, à época, uma hipótese de queixa-crime subsidiária, mas encontramos o entrave quanto à legitimidade. Ou seja, nossa representação nem sequer foi analisada. E Bolsonaro, Pazuello e tantos outros se livraram da responsabilidade evidente. Sequer foram processados. Um acinte. Um crime dentro de outro crime.

É claro que os crimes não estão prescritos e, mesmo nos casos em que houve pedidos de arquivamento, parece evidente que há fatos novos que ensejam a reabertura. Os 2 milhões de mortos continuam rondando nossas mentes, insepultos pela violência da omissão, do descaso e dos atos criminosos. E os milhões de familiares e amigos restam indignados.

O que talvez mais assuste e cause perplexidade é o fato de o bolsonarismo ainda resistir! Como o líder, hoje presidiário, Bolsonaro só foi condenado e preso por outros fatos, disseminou-se uma ideia de perseguição política. Os bolsonaristas, em regra, são indigentes intelectuais. Acompanham, como um gado, o berrante da mentira e das promessas absurdas.

Ainda agora o número 1, senador, apresenta-se como candidato à Presidência da República. E tem uma legião de seguidores! E ele segue na mesma trilha do pai.

Nesta semana, fez um discurso em um evento privado, perante representantes de 42 países. No encontro, o candidato a candidato ousou afirmar que o Brasil utiliza urnas eletrônicas fabricadas pela empresa venezuelana Smartmatic e citou um relatório da CIA segundo o qual a companhia estaria envolvida em fraudes nas eleições da Venezuela em 2012.

Tal mentira já havia sido propagada pelo hoje presidiário Bolsonaro, na presença de embaixadores, em 2022, o que resultou em uma nota oficial do Tribunal Superior Eleitoral desmentindo a informação.

O ato do então presidente da República deu origem a um julgamento no qual o hoje presidiário foi condenado. O TSE declarou Jair Bolsonaro inelegível por 8 anos por abuso de poder econômico e uso inapropriado dos meios de comunicação na reunião com embaixadores no Palácio da Alvorada, em 18 de julho de 2022.

Ainda assim, o filho número 1, hoje pré-candidato, repete o discurso mentiroso que já resultou na repetição da mesma nota oficial do Tribunal Superior Eleitoral desmentindo o fato. É inacreditável. Podemos esperar uma nova pandemia, com a irresponsabilidade criminosa no seu enfrentamento.

O senador Flávio indica que seguirá rigorosamente a trilha nefasta do seu pai, hoje presidiário. Os bolsonaristas sobrevivem e se alimentam da mentira, da ignorância e da dor dos mortos. Deverão ser todos responsabilizados.

Lembrando-nos do velho Marx, no Dezoito Brumário:

“A história se repete, a 1ª vez como tragédia e a 2ª, como farsa.”

Kakay  




Antônio Carlos de Almeida Castro, conhecido pela alcunha de Kakay, é um dos maiores advogados criminalistas brasileiros. É também poeta e escritor.