sexta-feira, 7 de junho de 2013

PROTEGGERE MARIA DO SOCORRO -



Proteggere Maria do Socorro

 
José Carlos Laitano

 






Il giorno stesso in cui ho compiuto diciotto anni, venute meno le sovvenzioni pubbliche, sono stata buttata in strada. Letteralmente, senza la minima preparazione. Abbandonata in un deserto affolato così differente da quello che fino a quel momento avevo conosciuto. E non meno ostile. Gli esterni, gli altri, così diversi, mi sembravano alieni. Poi, piano piano, ho capito che l’aliena ero io.[1]

 
Maria do Socorro tem um ano e foi abandonada. Poderia ter sido deixada numa esquina. Mas seu abandono foi ser esquecida em casa, quando casa existe, levada a mendigar nas ruas da cidade e levar tapa porque chora quando não deve.

Maria do Socorro poderia ter quatro anos, ter cara bonita e cabelos em cachos, o que despertou a atenção do namorado da mãe e a colocou no colo, sem calça.

Por diversos motivos Maria do Socorro foi parar no Conselho Tutelar e o Conselho Tutelar chamou a mãe para dar explicações. Pode ser que a mãe de Maria do Socorro tenha se mandado para outro bairro e sumido da sua vida. Mas também pode ser que a mãe tenha comparecido ao Conselho Tutelar com cara de Madalena arrependida e jurado mudar de vida ou jurado que o namorado mudou de casa. E Maria do Socorro permanece com a mãe, nas ruas da cidade, levando tapa.

Também pode ser que Maria do Socorro, embora sem mudar a vida que Deus lhe deu, nunca mais apareça no Conselho Tutelar. Paciência, um dia o governo faz a coisa certa, um dia o deputado cria vergonha, um dia a corrupção, de dinheiro ou de moral, acaba. Pode ser, um dia.

Mas também pode acontecer que Maria do Socorro retorne ao Conselho Tutelar e, depois de muitas idas e vindas, acabe numa casa que chamam de passagem. Está certo, ninguém explica que passagem é essa, uma passagem que nunca finda, ou será uma passagem para a solidão de vida sem família?

A sorte está lançada: a casa pode ser mais legal ou mais tipo depósito, assim cinquenta crianças de várias idades, todas juntas, tudo meio igual. Ou pode cair numa casa com alguma separação, digamos uma espécie de lar com dez crianças e uma mãe social, que é paga para ser mãe, mas esforça-se nos limites das suas possibilidades.

Tudo bem.

O pessoal da casa tenta o que chamam de reinserção na família natural. Lá vem a mãe novamente e, quando aparece, traz a cara da Madalena arrependida. Mas vamos tentar, insiste o pessoal da casa.

O Conselho tutelar gastou algum tempo, quem sabe meses, na primeira experiência. Agora o pessoal da casa consome outros meses na nova tentativa. Não dá resultado. Vários meses depois conclui que a mãe prostituta, drogada e algumas virtudes mais não é solução para a criança. O pai? Bem, quem sabe quem é o pai ou onde anda? Os avós. Os avós não chegam à casa dizendo que querem a neta longe. Alguns até tentam ficar com a criança, mas sua estrutura familiar já está de tal modo desgastada, a pobreza é de tal monte, e outros quetais, que não dá certo. Mas essa conclusão demandou tempo, quem sabe meses, outros meses e Maria do Socorro está completando três anos.

Vamos à família dos tios e primos. É um tal de corre pra longe que vou te contá, mal conseguem contornar as dificuldades com os filhos que já possuem, imaginem mais uma, ou duas, às vezes é um grupo de três ou quatro irmãos, comida daonde?



[1] No mesmo dia em que completei dezoito anos, apareceu menos subvenção pública, fui posta na rua. Literalmente, sem a mínima preparação. Abandonada num deserto cheio/lotado diferente daquele que havia conhecido até aquele momento. E não menos hostil. Os de fora, os outros, assim diversos, pareceram-me estranhos. Depois, pouco a pouco, entendi que a estranha era eu. (in Il suono di mille silenzi, de Emma La Spina, Ed. Piemme, Milano, Italia.

O pessoal da casa suspira, fizemos o possível. A assistente social cansou de utilizar o próprio carro correndo atrás de parentes de Maria do Socorro e gasta tempo com a papelada da burocracia que deve preencher todos os dias. Não dá. Não deu. A assistente social elabora um pequeno relatório e manda para o juiz: dá um jeito na perda do poder familiar, o negócio é adoção!

O juiz manda o papel para o promotor, para a pilha do promotor. Quando chega a vez daquele papel, o promotor escreve uma inicial - é assim que diz - para que seja decretada a perda do poder familiar. Em palavras curtas: tirar os pais biológicos da jogada e tentar uma família substituta; se possível, adoção.

A perda do poder famililiar é um processinho que o cartório entende igual aos outros. Então vai pra pilha. Em alguns dias ou semanas ele é considerado e um funcionário coloca o carimbo: à conclusão, significando: para o juiz. E vai para a pilha do juiz. Ou para a pilha do assessor do juiz.

Demora, mas finalmente o papel é considerado pelo assessor do juiz e ali é colocada a seguinte expressão: cite-se. Quer dizer: manda avisar aos interessados que houverem, especialmente os pais biológicos, que eles estão quase perdendo o poder de pais sobre a criança. Mas a mãe só aparece no barraco tarde da noite e oficial de justiça tarde da noite é complicado. Passa o tempo, quem sabe lá um dia ela dorme demais e é localizada. Mas o pai já era.

Muito tempo depois, o que pode ser uma semana, um mês, um ano, o oficial escreve no papel que o pai já era. E entrega no cartório e o papel vai para a pilha do cartório. Depois o carimbo conclusão e o papel vai para a pilha do assessor do juiz e algum tempo depois, que pode ser um dia, um mês, a nova expressão: cite-se por edital. E o papel volta para a pilha do cartório e um dia um funcionário preenche um formulário que é um edital que, no interior, é dependurado no corredor do foro, e ninguém lê. Mas o tempo passa.

Depois que o tempo passou, o papel volta para o cartório, o carimbo da passagem do tempo é colocado, o papel volta para a pilha do assessor do juiz e outra expressão é escrita: ao MP, querendo dizer, manda o papel para o promotor e o papel vai para a pilha do cartório que depois coloca na pilha do promotor ou do assessor do promotor e o promotor vê que o pai não foi localizado, que o edital foi escrito e colocado no corredor, que o tempo passou, que ninguém apareceu para reclamar Maria do Socorro e o promotor escreve: de acordo, pelo prosseguimento.

O prosseguimento é a pilha do cartório, a pilha do assessor do juiz, a escrita: nomeio defensor dativo etc, porque tem que ter advogado, pilha do cartório, pilha do defensor da comarca e o defensor, não tendo outra coisa a fazer no processinho, escreve que não tem provas a produzir, pilha do cartório, pilha do assessor do juiz e... aí muita coisa pode acontecer, digamos que o juiz apenas mande outra vez para o MP e o promotor escreva que está satisfeito com o andamento do processo e que concorda com a perda do poder familiar, pilha do cartório, pilha do assessor do juiz e é lavrada sentença decretando a perda do poder familiar. Maria do Socorro agora está formalmente sem pai e sem mãe, como sempre esteve na verdade da sua vida.

Na casa, Maria do Socorro assopra quatro velas cor de rosa e demonstra que adquiriu um pequeno tique nervoso.

A sentença vai para a pilha do cartório, para a pilha do promotor, para a pilha do defensor e depois não sei pra onde, porque a comarca não conta com assistente social nem ninguém no foro que fique pensando em Maria do Socorro. O juiz não é menorista. A quase totalidade dos juízes não possuem essa vocação, o juiz está muito preocupado com os processos cíveis e criminais, além da organização do foro. O juiz não conhece Maria do Socorro, o promotor também não, o defensor também não, o escrivão também não, o assessor do juiz também não, e muito dificilmente o oficial de justiça a conheça. Quem conhece Maria do Socorro, agora oficialmente sem pai e sem mãe? O pessoal da casa, que está muito ocupado com Maria do Socorro e as outras cinquenta ou cem crianças que precisam brincar e comer todos os dias e tem a questão do dinheiro que está sempre faltando.

Se Maria do Socorro tiver a mesma sorte que tiveram aqueles quatro irmãos de uma grande cidade do interior, durante quatro anos nada acontecerá após a perda do poder familiar. Quatro anos. Então, com essa sorte, Maria do Socorro estará com oito anos de idade. Sem pai e sem mãe. Oficialmente.

No foro, a grita é pelos processos cíveis, os advogados diariamente cobrando do escrivão, querendo falar com o juiz, mas o juiz dificilmente fala com advogados, só o assessor e o assessor, sem mexer a pálpebra ou piscar o olho, limita-se a dizer: faça uma petição, doutor! Em outras palavras, para que falar se pode escrever, não é mesmo? Mas esse é outro papo.

Talvez a sorte de Maria do Socorro seja melhor que a dos irmãos daquela grande cidade. Digamos que após a perda do poder familiar alguém - já que a comarca não conta com assistente social -  alguém tente a adoção. A lei determina que deve ser consultado o cadastro nacional. Maria do Socorro está com cinco ou seis anos, não encontra interessado. Uma outra criança tem menos de quatro anos, surgiu um casal e ela foi embora. O que a maior parte dos casais nacionais querem mesmo é criança recém nascida, branca, olho azul e sem nada de doença, atual ou futura. Com as exceções que se deve exaltar, é claro. Depois disso as dificuldades são crescentes. Maria do Socorro estava no limite, com quatro anos, quando ficou oficialmente sem pai e sem mãe. Poderia ter sido adotada. Poderia ter encontrado pai e mãe. Poderia estar morando numa casa só dela. Poderia deitar à noite com a mãe cantando canção de ninar e o pai fazendo um carinho nos seus cabelos. Poderia. Mas Maria do Socorro deita sozinha, num quarto onde dormem outras crianças, e ninguém canta canção de ninar. Quando acorda na madrugada vê tudo escuro, sente medo, mas aprende a controlar o horror porque ela está só com ela mesma.

 

Sono una delle mille bambine in silenzio

nelle grandi stanze di un istituto.[1]

 

Que fazer depois dos oito anos? Aprender a conviver com a ideia que família não foi feita para ela, Maria do Socorro. Tem gente que nasce rica, tem gente que nasce torta, ela nasceu sem família. É assim. Será assim. Tudo bem que tem o colégio, pela manhã, na escola pública ali do lado, e tudo bem que não terá biblioteca e muito menos internet para fazer pesquisas. Seu estudo será deficitário, ela terá menos ferramentas para vencer na vida.

Vencer na vida? Ora, bobagem!, o que Maria do Socorro precisa é vencer o medo da vida, saber que sua adolescência será dentro da casa repleta de regras e horários. Não importa, depois dos dezoito poderá recuperar os afazeres adolescentes, as loucuras adolescentes, os namoros adolescentes, os sonhos adolescentes. Mas até os dezoito permanecerá dormindo sozinha, sem acalanto. A gente acostuma.

Um dia, muito muito tempo depois, acontece a festa de aniversário, Maria do Socorro completa dezoito anos. Depois da festa o pessoal da casa mostra a pequena mala com suas poucas coisas e abre a porta: lá está o mundo, ele é seu. E Maria do Socorro, carregando sua pequena mala, caminha pela rua que tanto conhece, para na esquina, e só então lembra de perguntar: o que faço agora? E não há qualquer pessoa para responder, porque o Estado não tem mais obrigação para com ela, o pessoal da casa irá lembrar de si mas nada mais pode fazer, o juiz não está na comarca há muitos anos, deve andar lá pela capital, promovido, o promotor também; agora juiz e promotor são outros, nunca ouviram falar em Maria do Socorro, o defensor continua defensor nos papeis, o escrivão está mais velho, começaram os cabelos brancos, e o funcionário que colocava carimbo mudou de emprego e casou, agora ele tem duas famílias, a dos pais e a dele própria, êta sujeito de sorte!

Maria do Socorro está caminhando pela rua e tudo dependerá da sua sorte que, até hoje, não foi lá essas coisas. Quem se aproximará dela: o traficante, o gigolô, um rapaz bonito que será seu futuro marido?

E quem sabe? E para que saber? Já pensou se a gente conhecesse a data da morte? Melhor é nada saber do futuro. Então está bem, ao menos nessa parte as coisas estão funcionando para Maria do Socorro, ela não tem a mínima ideia do seu futuro, aliás nem do dia seguinte.

 

Digamos, só digamos, assim por diletantismo, à falta de coisa melhor para fazer numa tarde chuvosa de domingo, que uma alma santa decidisse intrometer-se no futuro dessas crianças e organizasse uma bagunça para responsabilizar toda essa gente preocupada com tudo, menos com Maria do Socorro, que entrou com um ano de idade no abrigo e de lá saiu com dezoito, oficialmente sem pai e sem mãe.

Você seria essa alma santa?


José Carlos Laitano, ( "O dia em que começarem a roubar livros, o mundo será melhor".) é escritor, juiz in pensione, professor na Escola Superior de Magistratura (ESM) e ex diretor cultural da Associação dos Magistrados Brasileiros nas gestões de 1995 - 2001. Mantém a coluna Paraíso Brasil em jornais do interior do estado do RS e ministra oficinas opara secretários de juiz e assessores de desembargador. Entre seus livros publicados estão: Essa coisa chamada Justiça, P da cara, Porto Alegre: curvas e prazeres, Jogo do passa-conto, Crônica da paixão inútil, Bianca di Morano, A Cor Verde do Arco-Íris, Minha mulher chamáva-se Jarbas e Criação do texto jurídico. Você vai achá-lo em :

www.josecarloslaitano.com


 

 

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Curso Intensivo de Aprendizagem e Coaching Assistido por Cavalo.

Aí está um curso super importante e inteligente. O cavalo nos ensinando uma porção de coisas. Prestigiem. 





Descrição: Módulo I, teórico e prático
Local: Haras Aliança da Serra
Período: de 18 a 21 de abril
Horário: 10:00 às 16:00
Inscrições: ABERTAS
O Curso Intensivo de Treinamento Assistido por Cavalos - Módulo I, tem 4 dias de duração e é voltado para todas as pessoas, apaixonadas ou não por cavalos, que desejam desenvolver sua autoestima, autoconhecimento e liderança.
 
Cada umas das atividade é composta por uma parte teórica com observação e prática e todo o trabalho é focado na aprendizagem vivencial e linguagem não verbal com o cavalo em liberdade. Todo o trabalho é realizado em solo. O programa do curso é composto por:
 
- Natureza do cavalo;
- Manadas: formação, liderança e dinâmica dos rebanhos;
- Personalidade de cada cavalo, como dintingui-los e comparação com a personalidade humana;
- Linguagem do cavalo, linguagem corporal e linguagem sensorial;
- O cavalo como um espelho;
- O cavalo como um professor;
- O cavalor como curador;
- O cavalo como treinador;
 
Investimento:
R$ 1.200,00 (Inclui certificado, manual, almoço e coffee-breaks)
 
Facilitadora:
Mônica Xavier Bartolomei (MSc, EGE, EAGALA, TAAC e Rorscharch)
 
Local:
Haras Aliança da Serra, Espírito Santo do Pinhal/SP
 
Informações:
Ligue para (19) 9355-5533 ou envie e-mail para equitac@harasaliancadaserra.com.br


segunda-feira, 18 de março de 2013

Enfim...reencontrei meu especial amigo.

Amigos - 35 anos depois....

Estou super feliz. Dias atrás mais precisamente na quinta feira passada, fui convidado pelo meu irmão Fernando a viajar alguns dias para o Rio Grande do Sul, um passeio sem muito compromissos  a não ser o compromisso especial de rever alguns amigos e pessoas queridas que tiveram em um ou outro momento da nossa existência, uma grande importância. Foram elas que nos moldaram, nos apontaram em determinado momento o caminho a seguir. Caminho este, que foi, sem sombra de dúvida, o caminho correto para prosseguir com retidão nossas vidas. E assim, demos inicio a nossa viagem rumo ao SUL, onde nascemos, nos criamos e nos tornamos "gente". Fomos em busca de resgate de dias da nossa infância e juventude. Pessoas e lugares que fomos felizes. Resgate muito importante, mais ainda quando hoje , já adentrando a turma dos "idosos", essas lembranças se fazem necessárias. Nos alimentam, refazem nossas energias e trazem com a mais absoluta certeza momentos de felicidade , aliás, de extrema felicidade. Como certa feita escreveu o grande escritor alemão Herman Hesse (1877-1962) : " quando pessoas que envelheceram tentam recordar quantas vezes e com que intensidade sentiram felicidade, procuram primeiramente em sua infância, e isso é correto, pois para vivenciar felicidade é preciso sobretudo independência do tempo, e com isso do medo e da esperança, e em geral com os anos as pessoas  perdem essa capacidade. Mesmo eu, quando tento recordar momentos em que participei do brilho do eterno presente, do sorriso de Deus, volto sempre a infância e encontro lá as mais frequentes e valiosas experiências desse tipo ". Nossa viagem foi repleta desses momentos de felicidade. Uma delas,
foi reencontrar muitos amigos de infância e juventude. Um amigo em especial quero aqui deixar consignado.
Quando serventuário da justiça em uma comarca do interior do RS, tive a honra de conhece-lo e ter convivido, brevemente com certeza, mas esse pouco tempo deixou marcado sua presença em minha memória. Juiz iniciando sua brilhante carreira coroada de êxito, me deu espaço, dentro da sua inequívoca humildade, para que desfrutasse de sua amizade. E foi o que ocorreu, Nossos caminhos , por coisas deste mundo sem explicações, tomaram rumos totalmente distantes um do outro. Mas eu segui, com o passar dos anos me inteirando do caminho que seguiu meu amigo daqueles dias. Sempre tive comigo a importância vital dos bons amigos e companheiros. E os "vigio" independente do tempo e local onde nos encontramos. E nesta viagem depois de um "curto espaço de tempo", mais precisamente coisa de 35 anos...eis que sou recebido com um abraço fraterno, franco, saudoso deste querido amigo em Xangrilá, RS, onde ele tem seu canto de reflexão e tranquilidade. Foi um dos momentos de muita alegria e quero aqui lhe prestar minha homenagem e toda minha admiração. Dr. Ruy Armando Gessinger. O Ruizão como alguns lhe tratam. Alemão, outros tantos. Para mim, um amigo de tantos e tantos anos, Dr. Ruy Gessinger. Coisas deste naipe são resumidas como "as alegrias da vida".  E dentre essas alegrias, meu caro amigo, está o privilégio de poder desfrutar da sua amizade. Muito obrigado, em meu nome e em nome do meu irmão Fernando pela calorosa acolhida. Novamente em casa, ainda estamos "saboreando" aqueles momentos, e aqui sempre nos encontraremos a tua disposição, caro amigo. 

Eliane Brum e a nova geração...



Eliane Brum
Que maravilha de texto. Todos os Pais deveriam ler isso...

Ao conviver com os bem mais jovens, com aqueles que se tornaram adultos há 
pouco e com aqueles que estão tateando para virar gente grande, percebo 
que estamos diante da geração mais preparada – e, ao mesmo tempo, da mais 
despreparada. Preparada do ponto de vista das habilidades, despreparada 
porque não sabe lidar com frustrações. Preparada porque é capaz de usar as 
ferramentas da tecnologia, despreparada porque despreza o esforço. 
Preparada porque conhece o mundo em viagens protegidas, despreparada 
porque desconhece a fragilidade da matéria da vida. E por tudo isso sofre, 
sofre muito, porque foi ensinada a acreditar que nasceu com o patrimônio 
da felicidade. E não foi ensinada a criar a partir da dor.

Há uma geração de classe média que estudou em bons colégios, é fluente em 
outras línguas, viajou para o exterior e teve acesso à cultura e à 
tecnologia. Uma geração que teve muito mais do que seus pais. Ao mesmo 
tempo, cresceu com a ilusão de que a vida é fácil. Ou que já nascem 
prontos – bastaria apenas que o mundo reconhecesse a sua genialidade.

Tenho me deparado com jovens que esperam ter no mercado de trabalho uma 
continuação de suas casas – onde o chefe seria um pai ou uma mãe 
complacente, que tudo concede. Foram ensinados a pensar que merecem, seja 
lá o que for que queiram. E quando isso não acontece – porque obviamente 
não acontece – sentem-se traídos, revoltam-se com a “injustiça” e boa 
parte se emburra e desiste.

Como esses estreantes na vida adulta foram crianças e adolescentes que 
ganharam tudo, sem ter de lutar por quase nada de relevante, desconhecem 
que a vida é construção – e para conquistar um espaço no mundo é preciso 
ralar muito. Com ética e honestidade – e não a cotoveladas ou aos gritos. 
Como seus pais não conseguiram dizer, é o mundo que anuncia a eles uma 
nova não lá muito animadora: viver é para os insistentes.

Por que boa parte dessa nova geração é assim? Penso que este é um 
questionamento importante para quem está educando uma criança ou um 
adolescente hoje. Nossa época tem sido marcada pela ilusão de que a 
felicidade é uma espécie de direito. E tenho testemunhado a angústia de 
muitos pais para garantir que os filhos sejam “felizes”. Pais que fazem 
malabarismos para dar tudo aos filhos e protegê-los de todos os 
perrengues – sem esperar nenhuma responsabilização nem reciprocidade.

É como se os filhos nascessem e imediatamente os pais já se tornassem 
devedores. Para estes, frustrar os filhos é sinônimo de fracasso pessoal. 
Mas é possível uma vida sem frustrações? Não é importante que os filhos 
compreendam como parte do processo educativo duas premissas básicas do 
viver, a frustração e o esforço? Ou a falta e a busca, duas faces de um 
mesmo movimento? Existe alguém que viva sem se confrontar dia após dia com 
os limites tanto de sua condição humana como de suas capacidades 
individuais?

Nossa classe média parece desprezar o esforço. Prefere a genialidade. O 
valor está no dom, naquilo que já nasce pronto. Dizer que “fulano é 
esforçado” é quase uma ofensa. Ter de dar duro para conquistar algo parece 
já vir assinalado com o carimbo de perdedor. Bacana é o cara que não 
estudou, passou a noite na balada e foi aprovado no vestibular de 
Medicina. Este atesta a excelência dos genes de seus pais. Esforçar-se é, 
no máximo, coisa para os filhos da classe C, que ainda precisam assegurar 
seu lugar no país.

Da mesma forma que supostamente seria possível construir um lugar sem 
esforço, existe a crença não menos fantasiosa de que é possível viver sem 
sofrer. De que as dores inerentes a toda vida são uma anomalia e, como 
percebo em muitos jovens, uma espécie de traição ao futuro que deveria 
estar garantido. Pais e filhos têm pagado caro pela crença de que a 
felicidade é um direito. E a frustração um fracasso. Talvez aí esteja uma 
pista para compreender a geração do “eu mereço”.

Basta andar por esse mundo para testemunhar o rosto de espanto e de mágoa 
de jovens ao descobrir que a vida não é como os pais tinham lhes 
prometido. Expressão que logo muda para o emburramento. E o pior é que 
sofrem terrivelmente. Porque possuem muitas habilidades e ferramentas, mas 
não têm o menor preparo para lidar com a dor e as decepções. Nem imaginam 
que viver é também ter de aceitar limitações – e que ninguém, por mais 
brilhante que seja, consegue tudo o que quer.

A questão, como poderia formular o filósofo Garrincha, é: “Estes pais e 
estes filhos combinaram com a vida que seria fácil”? É no passar dos dias 
que a conta não fecha e o projeto construído sobre fumaça desaparece 
deixando nenhum chão. Ninguém descobre que viver é complicado quando 
cresce ou deveria crescer – este momento é apenas quando a condição 
humana, frágil e falha, começa a se explicitar no confronto com os muros 
da realidade. Desde sempre sofremos. E mais vamos sofrer se não temos 
espaço nem mesmo para falar da tristeza e da confusão.

Me parece que é isso que tem acontecido em muitas famílias por aí: se a 
felicidade é um imperativo, o item principal do pacote completo que os 
pais supostamente teriam de garantir aos filhos para serem considerados 
bem sucedidos, como falar de dor, de medo e da sensação de se sentir 
desencaixado? Não há espaço para nada que seja da vida, que pertença aos 
espasmos de crescer duvidando de seu lugar no mundo, porque isso seria um 
reconhecimento da falência do projeto familiar construído sobre a ilusão 
da felicidade e da completude.

Quando o que não pode ser dito vira sintoma – já que ninguém está disposto 
a escutar, porque escutar significaria rever escolhas e reconhecer 
equívocos – o mais fácil é calar. E não por acaso se cala com medicamentos 
e cada vez mais cedo o desconforto de crianças que não se comportam 
segundo o manual. Assim, a família pode tocar o cotidiano sem que ninguém 
precise olhar de verdade para ninguém dentro de casa.

Se os filhos têm o direito de ser felizes simplesmente porque existem – e 
aos pais caberia garantir esse direito – que tipo de relação pais e filhos 
podem ter? Como seria possível estabelecer um vínculo genuíno se o 
sofrimento, o medo e as dúvidas estão previamente fora dele? Se a relação 
está construída sobre uma ilusão, só é possível fingir.

Aos filhos cabe fingir felicidade – e, como não conseguem, passam a exigir 
cada vez mais de tudo, especialmente coisas materiais, já que estas são as 
mais fáceis de alcançar – e aos pais cabe fingir ter a possibilidade de 
garantir a felicidade, o que sabem intimamente que é uma mentira porque a 
sentem na própria pele dia após dia. É pelos objetos de consumo que a 
novela familiar tem se desenrolado, onde os pais fazem de conta que dão o 
que ninguém pode dar, e os filhos simulam receber o que só eles podem 
buscar. E por isso logo é preciso criar uma nova demanda para manter o 
jogo funcionando.

O resultado disso é pais e filhos angustiados, que vão conviver uma vida 
inteira, mas se desconhecem. E, portanto, estão perdendo uma grande 
chance. Todos sofrem muito nesse teatro de desencontros anunciados. E mais 
sofrem porque precisam fingir que existe uma vida em que se pode tudo. E 
acreditar que se pode tudo é o atalho mais rápido para alcançar não a 
frustração que move, mas aquela que paralisa.

Quando converso com esses jovens no parapeito da vida adulta, com suas 
imensas possibilidades e riscos tão grandiosos quanto, percebo que 
precisam muito de realidade. Com tudo o que a realidade é. Sim, assumir a 
narrativa da própria vida é para quem tem coragem. Não é complicado porque 
você vai ter competidores com habilidades iguais ou superiores a sua, mas 
porque se tornar aquilo que se é, buscar a própria voz, é escolher um 
percurso pontilhado de desvios e sem nenhuma certeza de chegada. É viver 
com dúvidas e ter de responder pelas próprias escolhas. Mas é nesse 
movimento que a gente vira gente grande.

Seria muito bacana que os pais de hoje entendessem que tão importante 
quanto uma boa escola ou um curso de línguas ou um Ipad é dizer de vez em 
quando: “Te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa 
briga é tua”. Assim como sentar para jantar e falar da vida como ela é: 
“Olha, meu dia foi difícil” ou “Estou com dúvidas, estou com medo, estou 
confuso” ou “Não sei o que fazer, mas estou tentando descobrir”. Porque 
fingir que está tudo bem e que tudo pode significa dizer ao seu filho que 
você não confia nele nem o respeita, já que o trata como um imbecil, 
incapaz de compreender a matéria da existência. É tão ruim quanto ligar a 
TV em volume alto o suficiente para que nada que ameace o frágil 
equilíbrio doméstico possa ser dito.

Agora, se os pais mentiram que a felicidade é um direito e seu filho 
merece tudo simplesmente por existir, paciência. De nada vai adiantar 
choramingar ou emburrar ao descobrir que vai ter de conquistar seu espaço 
no mundo sem nenhuma garantia. O melhor a fazer é ter a coragem de 
escolher. Seja a escolha de lutar pelo seu desejo – ou para descobri-lo –, 
seja a de abrir mão dele. E não culpar ninguém porque eventualmente não 
deu certo, porque com certeza vai dar errado muitas vezes. Ou transferir 
para o outro a responsabilidade pela sua desistência.

Crescer é compreender que o fato de a vida ser falta não a torna menor. 
Sim, a vida é insuficiente. Mas é o que temos. E é melhor não perder tempo 
se sentindo injustiçado porque um dia ela acaba.

Eliane Brum (Revista Época)  "sempre olhou para a vida e para as pessoas de uma maneira diferente. Nascida em Ijuí , lembra que ainda na infância olhava para as luzes acesas dentro das casas dos moradores da cidade e imaginava como cada um vivia, o que os fazia rir ou chorar. “Eu era uma criança exacerbadamente sensível. Desde pequena, sentia as dores do mundo”, conta. Filha de professores - a mãe, Vanyr, lecionava Português e Literatura, o pai, Argemiro Brum , ensinava Português, escritor de livros sobre história econômica e fundador da Universidade de Ijuí" . 


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

VICTOR BRECHERET - O CARA!!!




Sou o gaúcho mais paulistano desta cidade. Estou por aqui coisa de 35 anos e a cidade de São Paulo sempre fez minha cabeça. Conheço a cidade como poucos. Já andei por todos os cantos e uma das coisas que mais me encanta em São Paulo á a diversidade. Cada pedacinho tem sua particularidade com certeza pela mescla de gente que aqui veio morar. Os bairros , todos sem exceção, são identificados por um ou outro detalhe . Os italianos que aqui chegaram, os alemães, espanhóis, portugueses, japoneses, enfim. gente  de todos os cantos do mundo, de todas as regiões do Brasil, carimbaram de uma ou outra maneira, sua presença por aqui. Gosto muito de caminhar pela cidade. Pois só caminhando vc consegue observar cada cantinho e descobre coisas que passariam desapercebido se vc cruzar de automóvel, ônibus ou outro veículo qualquer. Só "de pés" como falam nossos irmãos lá do norte e nordeste vc. decifra a cidade. Feito este preâmbulo gostaria de salientar o registro de aniversário de um "paulistano" como eu. Nascido na Itália, veio para o Brasil mocinho e aqui virou ítalo-brasileiro por opção. Tráta-se  de um dos grandes artistas escultores do Brasil, Victor Brecheret( 22 de fevereiro de 1894 Farnese-Itália/ 17 de dezembro de 1955 São Paulo SP. Para quem desconhece quem seja, com certeza já passou por uma das suas obras. Ali defronte o Parque Ibirapuera, vc bate de frente com uma escultura de encher os olhos de qualquer vivente. O Monumento as Bandeiras. É o monumento que mais gosto da cidade. Situado no lugar apropriado essa escultura  levou 30 anos para ser feita. Homenageia os bandeirantes que cruzaram a pata de cavalo todo o continente e descobriram várias etnias espalhadas por nosso País.   Lá por volta de 1921 o governo de São Paulo encomendou a Brecheret a escultura. E o artista se debruçou na prancheta  para dar vida a essa maravilha. Em 1954, quando da inauguração do Parque Ibirapuera, a obra estava pronta. Um colosso. Tem 50 metros de comprimento, 16 metros de altura, e Brecheret usou 250 blocos de granito (50 toneladas cada um). Vale a pena conhecer a obra de pertinho, tocar na pedra. Vc com certeza ficará emocionado e sentirá toda a energia que ali foi posta pelo autor. E isso, é uma das coisas que faz a cidade de São Paulo ser querida por muitos brasileiros e estrangeiros que aqui "sentaram praça". Apesar da judiaria que os políticos  governantes , em sua grande maioria incompetentes, fazem com a cidade e o descaso com as coisas do povo,  São Paulo vai sempre em frente. E a cada dia se torna mais querida. Fui....


terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

A VIOLENCIA CONTRA A POLICIA.




Depois de um bom tempo afastado do meu blog, retorno as "escrituras". Por motivo alheio a minha vontade, tive que deixar "meu parceirinho" meio que de lado mas, cá estou. Retorno publicando uma matéria que tirei do blog do nosso querido Dr. Ruy Gessinger lá do Rio Grande do Sul. Trata-se de um tema mais que importante. Um tema obrigatório que deveria ser discutido todos os dias e tomadas as providências que nossos governantes insistem em não tomar. Isso, entre outras coisas é omissão, falta de vergonha na cara e outras coisitas mais. Mas vamos ao texto abaixo. 

Namorando com o suicídio",publicada em 30/01/2013, por J. R. Guzzo

Se nada piorar neste ano de 2013, cerca de 250 policiais serão assassinados no Brasil até o dia 31 de dezembro. É uma história de horror, sem paralelo em nenhum país do mundo civilizado. Mas estes foram os números de 2012, com as variações devidas às diferenças nos critérios de contagem, e não há nenhuma razão para imaginar que as coisas fiquem melhores em 2013 – ao contrário, o fato de que um agente da polícia é morto a cada 35 horas por criminosos, em algum lugar do país, é aceito com indiferença cada vez maior pelas autoridades que comandam os policiais e que têm a obrigação de ficar do seu lado. A tendência, assim, é que essa matança continue sendo considerada a coisa mais natural do mundo – algo que “acontece”, como as chuvas de verão e os engarrafamentos de trânsito de todos os dias.

Raramente, hoje em dia, os barões que mandam nos nossos governos, mais as estrelas do mundo intelectual, os meios de comunicação e a sociedade em geral se incomodam em pensar no tamanho desse desastre. Deveriam, todos, estar fazendo justo o contrário, pois o desastre chegou a um extremo incompreensível para qualquer país que não queira ser classificado como selvagem. Na França, para ficar em um exemplo de entendimento rápido, 620 policiais foram assassinados por marginais nos últimos quarenta anos – isso mesmo, quarenta anos, de 1971 a 2012. São cifras em queda livre. Na década de 80, a França registrava, em média, 25 homicídios de agentes da polícia por ano, mais ou menos um padrão para nações desenvolvidas do mesmo porte. Na década de 2000 esse número caiu para seis – apenas seis, nem um a mais, contra os nossos atuais 250. O que mais seria preciso para admitir que estamos vivendo no meio de uma completa aberração?

Há alguma coisa profundamente errada com um país que engole passivamente o assassínio quase diário de seus policiais -e, com isso, diz em voz baixa aos bandidos que podem continuar matando à vontade, pois, no fundo, estão numa briga particular com “a polícia”, e ninguém vai se meter no meio. Essa degeneração é o resultado direto da política de covardia a que os governos estaduais brasileiros obedecem há décadas diante da criminalidade. Em nenhum lugar a situação é pior do que em São Paulo, onde se registra a metade dos assassinatos de policiais no Brasil; com 20% da população nacional, tem 50% dos crimes cometidos nessa guerra. É coisa que vem de longe. Desde que Franco Montoro foi eleito governador, em 1982, nas primeiras eleições diretas para os governos estaduais permitidas pelo regime militar, criou-se em São Paulo, e dali se espalhou pelo Brasil, a ideia de que reprimir delitos é uma postura antidemocrática – e que a principal função do estado é combater a violência da polícia, não o crime. De lá para cá, pouca coisa mudou. A consequência está aí: mais de 100 policiais paulistas assassinados em 2012.

O jornalista André Petry, num artigo recente publicado nesta revista, apontou um fato francamente patológico: o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, conseguiu o prodígio de não comparecer ao enterro de um único dos cento e tantos agentes da sua polícia assassinados ao longo do ano de 2012. A atitude seria considerada monstruosa em qualquer país sério do mundo. Aqui ninguém sequer percebe o que o homem fez, a começar por ele próprio. Se lesse essas linhas, provavelmente ficaria surpreso: “Não, não fui a enterro nenhum. Qual é o problema?”. A oposição ao governador não disse uma palavra sobre sua ausência nos funerais. As dezenas de grupos prontos a se indignar 24 horas por dia contra os delitos da polícia,reais ou imaginários, nada viram de anormal na conduta do governador. A mídia ficou em silêncio. É o aberto descaso pela vida, quando essa vida pertence a um policial. É, também, a capitulação diante de uma insensatez: a de ficar neutro na guerra aberta que os criminosos declararam contra a polícia no Brasil.

Há mais que isso. A moda predominante nos governos estaduais, que vivem apavorados por padres, jornalistas, ONGs, advogados criminais e defensores de minorias, viciados em crack, mendigos, vadios e por aí afora, é perseguir as sua próprias polícias – com corregedorias, ouvidorias, procuradorias e tudo o que ajude a mostrar quanto combatem a “arbitrariedade”. Sua última invenção, em São Paulo, foi proibir a polícia de socorrer vítimas em cenas de crime, por desconfiar que faça alguma coisa errada se o ferido for um criminoso; com isso, os policiais paulistas tornam-se os únicos cidadãos brasileiros proibidos de ajudar pessoas que estejam sangrando no meio da rua. É crescente o número de promotores que não veem como sua principal obrigação obter a condenação de criminosos; o que querem é lutar contra a “higienização” das ruas, a “postura repressiva” da polícia e ações que incomodem os “excluídos”. Muitos juízes seguem na mesma procissão. Dentro e fora dos governos continua a ser aceita, como verdade científica, a ficção de que a culpa pelo crime é da miséria, e não dos criminosos. Ignora-se o fato de que não existe no Brasil de hoje um único assaltante que roube para matar a fome ou comprar o leite das crianças. Roubam, agridem e matam porque querem um relógio Rolex; não aceitam viver segundo as regras obedecidas por todos os demais cidadãos, a começar pela que manda cada um ganhar seu sustento com o próprio trabalho. Começam no crime aos 12 ou 13 anos de idade, estimulados pela certeza de que podem cometer os atos mais selvagens sem receber nenhuma punição; aos 18 ou 19 anos já estão decididos a continuar assim pelo resto da vida.

Essa tragédia, obviamente, não é um “problema dos estados”, fantasia que os governos federais inventaram há mais de 100 anos para o seu próprio conforto – é um problema do Brasil. A presidente Dilma Rousseff acorda todos os dias num país onde há 50 000 homicídios por ano; ao ir para a cama de noite, mais de 140 brasileiros terão sido assassinados ao longo de sua jornada de trabalho. Dilma parece não sentir que isso seja um absurdo. No máximo, faz uma ou outra reunião inútil para discutir “políticas públicas” de segurança, em que só se fala em verbas e todos ficam tentando adivinhar o que a presidente quer ouvir. Não tem paciência para lidar com o assunto; quer voltar logo ao seu computador, no qual se imagina capaz de montar estratégias para desproblematizar as problematizações que merecem a sua atenção. Não se dá conta de que preside um país ocupado, onde a tropa de ocupação são os criminosos. Bela solução dada pela Itália, foi a criação da denominada POLÍZIA PENITENZIÁRIA na década de 90, no Brasil, os agentes prisionais são considerados a escoria da sociedade e da segurança pública, e o crime reina latente em todos lugares.

Muito pouca gente, na verdade, se dá conta. Os militares se preocupam com tanques de guerra, caças e fragatas que não servem para nada; estão à espera da invasão dos tártaros, quando o inimigo real está aqui dentro. Não podem, por lei, fazer nada contra o crime – não conseguem nem mesmo evitar que seus quartéis sejam regularmente roubados por criminosos à procura de armas. A classe média, frequentemente em luta para pagar as contas do mês, se encanta porque também ela, agora, começa a poder circular em carros blindados; noticia-se, para orgulho geral, que essa maravilha estará chegando em breve à classe C. O número de seguranças de terno preto plantados na frente das escolas mais caras, na hora da saída, está a caminho de superar o número de professores. As autoridades, enfim, parecem dizer aos policiais: “Damos verbas a vocês. Damos carros. Damos armas. Damos coletes. Virem-se.”

É perturbadora, no Brasil de hoje, a facilidade com que governantes e cidadãos passaram a aceitar o convívio diário com o mal em estado puro. É um “tudo bem” crescente, que aceita cada vez mais como normal o que é positivamente anormal – “tudo bem” que policiais sejam assassinados quase todos os dias, que 90% dos homicídios jamais cheguem a ser julgados, que delinquentes privatizem para seu uso áreas inteiras das grandes cidades. E daí? Estamos tão bem que a última grande ideia do governo, em matéria de segurança, é uma campanha de propaganda que recomenda ao cidadão: “Proteja a sua família. Desarme-se”. É uma bela maneira, sem dúvida, de namorar com o suicídio.